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Não precisas de uma aplicação para isso (ainda)

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Não precisas de uma aplicação para isso

Visão geral


Tenho ideia de uma aplicação...

Essa é a uma das frases mais comuns que ouço ao encontro-me com entusiastas, fundadores e empreendedores, até mesmo pessoas de outras indústrias quando começam a apresentar-me suas ideias que irão mudar o mundo e fazer milhões.

E por mais que eu queira apoiar a inovação e fazer ela acontecer, eu fico em dúvida em uma posicão difícil entre fazer parte do projecto de desenvolvimento móvel mais incrível do mundo ou ser o “estraga-prazeres” que diz que não precisas de uma aplicação para isso.

O erro clássico: começar pela tecnologia

Fundadores técnicos adoram código ou vibe-coding. Designers gostam de interfaces. Empreendedores gostam de “lançar”.

Mas clientes não acordam a pensar:

Preciso de instalar mais uma aplicação hoje

Eles acordam com um problema. E a questão é: esse problema é tão doloroso que eles estão dispostos a passar por toda a massada de instalar, criar conta, memorizar palavra-passe, activar permissões e actualizar constantemente uma aplicação para resolver isso? Caso contrário, vais construir um produto bonito... para ninguém.

Sua ideia é incrível, mas isso não significa que seja uma aplicação

Nem tudo que é um problema precisa de uma aplicação. Na verdade, a maioria dos problemas não precisam de uma aplicação. Um dos motivos pela qual eu fico cético quando alguém me diz que "tem uma ideia de aplicação" é porque uma aplicação não é um produto.

É um meio, um canal, um facilitador, uma ferramenta. O seu serviço merece muito mais do que uma simples apresentação sobre a aplicação que pretende criar. Ele precisa de um "Porquê" (também chamam história ou problema a resolver).

Se realmente consideras o seu serviço como a sua aplicação, isso irá colocar muita pressão sobre a sua equipa de desenvolvimento (seja ela terceirizada/ outsource ou não) para criar um "produto" perfeito, adicionar funcionalidades boas-de-se-ter ao longo do processo, por vezes até no meio de sprints, e ficar extremamente decepcionado após duas semanas na App Store com apenas 50 downloads e com poucas avaliações.

Geralmente as pessoas cegadas pelo efeito-aplicação não conseguem perceber que o problema que estão a tentar resolver pode ser resolvido de forma mais simples, mais rápida e mais barata, sem a necessidade de uma aplicação. E isso é um erro estratégico que pode custar muito tempo, dinheiro e energia.

Resolva um problema

Existe uma aplicação para cada necessidade, mas não existe uma necessidade para cada aplicação.

O que tem de acertar é a seguinte pergunta: Qual problema está a tentar resolver?

Se não acertar nesta questão, não terá acertado em nada. E se acertar nesta questão, o resto é só detalhe. E o mais importante é que o problema que está a tentar resolver seja realmente relevante para os seus clientes. É melhor certificar-se de que existem clientes que pode identificar, que realmente querem utilizar a sua aplicação e estão dispostos a pagar por ela, ou desesperados para lhe dar dinheiro se tiver a solução certa.

Se o problema não for relevante, ninguém vai querer pagar, nem usar ou recomendar isso. E se ninguém quiser pagar, usar ou recomendar, a sua aplicação não tem futuro. Uma boa aplicação para um mau plano de negócios provavelmente irá fracassar.

Seu cliente existe?

Se o teu cliente não existe, a tua aplicação não tem mercado.

Após identificar o problema, o próximo passo é identificar o cliente. E não apenas um cliente genérico, mas um cliente específico, real, que pode ser identificado e que tem uma dor real que a sua aplicação pode resolver. Existem inúmeras formas de testar a sua ideia e verificar se outras pessoas partilham a sua causa.

Experimentos de validação

  • Crie uma página "Brevemente" para realizar algumas experiências e descobrir e verificar as suas suposições sobre a questão acima. Se as pessoas estiverem dispostas a entrar numa lista de espera para o lançamento do seu serviço, terá alguns dados. Quantas pessoas tem, quantas se inscreveram, quantas desistiram e foram embora.

  • Lista de e-mails. Recolha os e-mails dos utilizadores interessados e saiba quando será o lançamento.

  • Crie uma landing page e veja se as pessoas estão dispostas a clicar no botão "Quero usar" ou "Quero saber mais".

  • Pergunte amigos e familiares se eles conhecem alguém que tem esse problema ou como eles lidam com isso actualmente.

  • Faça uma pesquisa de mercado e veja se as pessoas estão dispostas a pagar por uma solução para o problema que identificou.

O que se pretende alcançar é testar o terreno e, acima de tudo, construir uma comunidade de pessoas interessadas no que tem para oferecer.

Construir uma comunidade é provavelmente o aspecto mais subtil e menos compreendido da fundação de uma empresa, uma vez que exige uma atitude que não pode ser treinada: Autenticidade. Não pode fingir o seu Porquê e a sua História. E mesmo como cliente, muitas vezes é difícil explicar porque é que um produto ou serviço parece certo. Um caso de estudo interessante sobre a construção de comunidades são as grandes marcas. Descobriram a importância de contar histórias e do envolvimento do cliente.

Zappos é um exemplo clássico de uma empresa que construiu uma comunidade forte em torno de um propósito claro e autêntico. Eles não vendem apenas sapatos, eles vendem uma experiência de atendimento ao cliente excepcional (Happiness in a box).

Se estiver a abordar o problema certo e a contar uma história convincente, uma página de Facebook pode ser exactamente o que precisa para começar a encontrar os seus verdadeiros seguidores. Não precisa de uma aplicação para isso... pelo menos não ainda.

Prós e Contras de Ter uma Aplicação

Ter uma aplicação pode oferecer diversas vantagens para uma empresa ou serviço, como aumentar o envolvimento do cliente, melhorar a notoriedade da marca e proporcionar uma experiência de utilizador mais personalizada. As aplicações podem ainda oferecer acesso conveniente a produtos ou serviços, facilitar a comunicação entre a empresa e os seus clientes e agilizar os processos para ambas as partes.

Apesar das vantagens, ter uma aplicação pode também apresentar algumas desvantagens, como os elevados custos de desenvolvimento e manutenção, a necessidade de actualizações e melhorias constantes e o risco de baixo desempenho ou baixa taxa de adoção. Além disso, ter uma aplicação pode não ser necessário ou útil para todas as empresas ou serviços, dependendo da natureza do sector, do público-alvo e das necessidades dos clientes.

É essencial que as empresas e os serviços avaliem os prós e os contras de ter uma aplicação e considerem se é um investimento necessário e que vale a pena. Embora ter uma aplicação possa ser benéfico em alguns casos, é importante avaliar se os potenciais benefícios compensam os custos e se existem estratégias ou soluções alternativas que possam alcançar resultados semelhantes.

Alternativas a ter uma aplicação

Precisa mesmo de uma aplicação ou apenas de um site melhor?

Princípio: Consegue servir uma grande parte dos seus clientes através de um site bem concebido?

Em alguns casos, descobre-se que ter uma aplicação não é necessário, mas ainda assim querem oferecer aos clientes uma experiência optimizada para dispositivos móveis. Uma alternativa é ter um website responsivo, concebido para se ajustar ao tamanho do ecrã do utilizador e proporcionar uma experiência ideal como uma aplicação em dispositivos móveis. Esta pode ser uma opção mais económica para as empresas que não têm recursos para desenvolver e manter uma aplicação separada. Web vs Aplicação

Pergunte: o meu serviço ou a minha solução precisa realmente de uma aplicação, ou posso simplesmente melhorá-la com um website?

Progressive Web Apps (PWAs): são aplicações web que se comportam como aplicações nativas, oferecendo acesso offline, tempos de carregamento mais rápidos e experiências de utilizador mais fluídas. Até 2027, as PWAs poderão substituir metade das aplicações nativas. PWA

As PWAs são vantajosas para empresas com orçamentos limitados, uma vez que oferecem uma experiência semelhante à de uma aplicação nativa sem necessidade de desenvolvimento para cada plataforma. A Google e o Twitter já adotaram as PWAs, e espera-se que mais empresas sigam o exemplo, procurando opções leves e multiplataforma. A Zalox tem um artigo bem detalhado sobre o assunto.

Então... Quando é que precisas mesmo de uma aplicação?

Imagina o seguinte cenário: construíste uma comunidade forte. Tens um número significativo de seguidores. A tua proposta e proposição de valor é clara.

Mas há um problema oculto e silencioso: o ecrã inicial do telemóvel das pessoas já está lotado de outras aplicações. O tempo que alguém passa com os dedos no ecrã é limitado. E extremamente disputado.

Façamos um teste simples agora mesmo: pegue no seu telemóvel e conte quantas aplicações realmente usa todas as semanas. Provavelmente não são mais do que 5 ou 10. E mesmo essas, muitas vezes, são usadas apenas para tarefas específicas ou em momentos específicos. Eis o meu resultado:

  • Redes sociais: WhatsApp, Instagram, LinkedIn
  • Notas: Notion, Notes
  • Serviços "aqui e agora" (transporte, mapas, música): Yango, Google Maps, Spotify
  • Comunicação: Gmail
  • Entretenimento: YouTube
  • Bancário: Smart IZI, e-Daki
  • Notícias: Medium, Substack
  • Utilitários: Google Drive, Dropbox
  • Produtividade: TickTick
  • Jogos: Clash Royale

É contra esse espaço mental que a tua aplicação vai competir.

Portanto, a menos que o teu produto resolva algo tão essencial quanto mobilidade, comunicação, dinheiro ou hábito diário, a probabilidade de alguém instalar a tua aplicação e mantê-la instalada, é baixa.

Como reduzir essa barreira? Existem algumas estrategias que podem ajudar a aumentar as chances de adoção da tua aplicação:

  • Categoria de Serviços “aqui e agora”: Se o teu serviço é algo que as pessoas precisam de acessar rapidamente e com frequência, como transporte, mapas, música, entregas ou saúde. Se conseguir criar uma aplicação nessa categoria, vai ficar rico.

  • Categoria de Jogos: Se o teu serviço é um jogo ou envolve elementos de gamificação, uma aplicação pode ser necessária para proporcionar uma experiência imersiva e interativa usando os recursos do dispositivo, como gráficos avançados, sensores e controles táteis.

  • Notificações Relevantes: Se o teu serviço depende de enviar notificações que as pessoas realmente querem receber, como actualizações relevantes, alertas personalizados ou informações críticas, uma aplicação pode ser a melhor forma de garantir que essas notificações sejam entregues de forma eficaz. Notificações são estruturais, não decorativas

  • Automatização de Processos: Se o teu serviço envolve processos que podem ser automatizados, como encontrar utilizadores, organizar eventos ou criar processos operacionais, uma aplicação pode ajudar a agilizar esses processos e melhorar a experiência do utilizador.

  • Dependência de Hardware: Se a experiência do utilizador depende de hardware específico, como GPS, Bluetooth, sensores ou biometria, uma aplicação pode ser necessária para aproveitar esses recursos de forma eficaz.

  • Retenção e Uso Frequente: Se o teu serviço é algo que as pessoas precisam de usar regularmente e com frequência, como um banco digital, ride-hailing, delivery, fitness tracking ou mensagens, uma aplicação pode ser essencial para garantir que os utilizadores tenham acesso fácil e rápido ao serviço.

Depois de atravessar com rigor as fases do “Porquê” e da Construção de Comunidade, já não estás a decidir com base em entusiasmo — estás a decidir com base em evidência.

Esse percurso não apenas preserva tempo e capital, como elimina a dúvida estratégica central: “Preciso mesmo de uma aplicação?”

Realidade de mercados emergentes

Em contextos como Moçambique, onde a penetração de smartphones e o acesso à internet ainda estão em crescimento, a necessidade de uma aplicação pode ser ainda mais questionável. Existem várias razões para isso:

  • Espaço de armazenamento é limitado
  • Pacotes de dados móveis são caros
  • Confiança digital ainda está em construção
  • Acesso a dispositivos modernos é desigual

Cada instalação é uma barreira adicional que pode impedir a adoção do serviço, especialmente se o público-alvo for sensível a custos ou tiver acesso limitado a dispositivos modernos. Nesses casos, uma abordagem centrada em soluções web responsivas ou PWAs pode ser mais eficaz para alcançar um público mais amplo e garantir que o serviço seja acessível a todos, independentemente do tipo de dispositivo que utilizam.

Resumindo e concluindo

Nem tudo que é um problema precisa de uma aplicação. Antes de investir tempo e recursos no desenvolvimento de uma aplicação, é crucial identificar o problema que se pretende resolver e garantir que existe um público-alvo real e interessado. Muitas vezes, soluções mais simples, como um website responsivo ou uma PWA.

E para um Engenheiro de Software como eu, parece cada vez mais errado simplesmente desenvolver aquilo pelo qual sou pago, sem sequer avisar os meus clientes que talvez não precisem de gastar esse dinheiro agora na aplicação. Afinal, o meu trabalho é ajudar a resolver problemas, não a criar aplicações. E se o problema pode ser resolvido de forma mais simples, mais rápida e mais barata, sem a necessidade de uma aplicação, então essa é a melhor solução para todos os envolvidos.

Obrigado por ter lido até aqui. Se este artigo o fez repensar a necessidade de construir uma aplicação, então partilhe com alguém que esteja prestes a cometer o erro de construir uma aplicação cedo demais também.

E se estiver a avaliar uma ideia ou a decidir entre website, sistema ou aplicação móvel, posso analisar isso de forma estratégica. Posso ajudar com os meus serviços ou entre em contacto.